10/10/2011

Ina

Há muito, muito tempo, na Primavera de 1911, no interior orgânico de uma Margarida, formava-se um sistema bafejado por um Camilo, de seu apelido Lélis. Como, pela lei actual, a vida portuguesa começa às 12 semanas de gestação, no Verão desse mesmo ano o sistema multicelular ganhou uma forma, que se convenciona como sendo humana, e determinou o conceito daquela que viria a ser uma das minhas avós, e a quem viriam a chamar Bernardina. Tu.

Nasceste a 6 de Fevereiro, com uma curta diferença de horas de Eva Braun. Nesse dia, Jackson Pollock era um recém-nascido com quase 15 dias e Jorge Amado ou John Cage ultrapassavam, também eles, as 12 semanas intra-uterinas. Nasceste no ano bissexto em que Houdini se consagrava o maior ilusionista de sempre, em que Thomas Edison finalizava o Kinetophone e em que o Titanic se tornava o barco mais famoso do mundo.

Sobreviveste às esdrúxulas doenças da época, que dizimavam centenas de crianças, algumas logo à nascença; passaste pelas duas grandes guerras, com maior ou menor consciência; pariste em casa sete filhos, e mais não foram porque não vingaram; criaste e geriste a tua família de forma nómada e inconstante, mal ou bem, para o mal e para o bem; contrataste e despediste; estudaste e leccionaste; sofreste desgostos e engoliste sapos; acompanhaste todo o regime fechado da ditadura e a mentira da democracia que acabaria por tornar o País em algo que, por mais que te cobrisses com o Expresso, já não conseguias entender; permitiste, sem reclamar, que na Conservatória te alterassem a data de nascimento e se enganassem no teu apelido, o mesmo que me orgulho de assinar, mas que soa tão diferente daquele que dactilografaram no teu BI; permitiste também, complacente e orgulhosa, que a menina que eu era, e que tinha de lidar diariamente com o teu impronunciável nome, despudoradamente to abreviasse para “Ina”, sem imaginares que essa ingénua redução seria adoptada por toda a família, aliviada, daí em diante; viste borbulharem os netos e depois os bisnetos; já depois dos 80 anos caíste aparatosamente pela escadas abaixo, o que te valeu uma anca partida mas de que conseguiste recuperar plenamente; e já depois dos 90 sujeitaste-te a duas anestesias gerais em menos de 48 horas porque a primeira intervenção cirúrgica não foi suficiente. A extrema unção já fazia parte do teu vasto portfolio sacramental há, se não me engano, uma década.

Em 100 anos enterraste pais, marido, sogros, primas e parentes e todos os amigos e conhecidos da tua geração… chegaste mesmo a enterrar uma filha, mas sem que o chegasses a saber. O segredo da tua longevidade, dizias, estava no pão com manteiga e nas azeitonas que comias como se não houvesse amanhã. O segredo da tua pele lisa, sem rugas, dizias, era o sabão azul e branco, com o qual lavavas tanto a roupa como a cara.

Hoje, foste tu quem foi a enterrar, voltando a conceito, mas já moldado e moldador. E se poucas lágrimas houve, enquanto te víamos empacotada a descer terra adentro, não foi certamente por não nos seres querida nem por não nos deixares saudades, mas porque os teus 100 anos e a tua lenta forma de abandonar a vida nos permitiram fazer um luto progressivo, antecipado e de impacto controlado.

… Porque no dia em que me entregaste um arranjo de costura numa saia e me anunciaste que acabavam as trapologias, percebi que um bocadinho de ti morria. No dia em que foi preciso contratar uma senhora para te ajudar nas lides da casa e em que caiaste as paredes pela última vez, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia em que deixaste de, pelo teu próprio pé, atravessar a cidade de uma ponta à outra para te juntares a nós ao almoço de Domingo, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia em que os canteiros do teu quintal deixaram de ter malvas e cravinas floridas, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia em que a vaga no lar te levou para Lisboa e em que deixaste de fazer arroz doce ou marmelada, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia em que a família percebeu que não fazia sentido manter a tua casa porque a ela não voltarias, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia do meu aniversário em que não recebi nem o teu postal nem o teu infalível telefonema, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia em que te visitei e em que já não me reconheceste, percebi que mais um bocadinho de ti morria. No dia em que te levaram para o hospital e no dia em que se disse que desse dia não passarias, percebi que mais um bocadinho de ti morria. Em cada dia que um bocadinho de ti morria, a menina que te havia abreviado o nome parecia cada vez mais distante e o momento de despedida da condição física de neta que adquiri à nascença, seguramente cada vez mais próximo…

Assim foi que, aos poucos, e a esticar a tua longa corda até ao limite, me poupaste o inesperado e me preparaste para o inevitável.

Deves estar cansada, avó… Obrigada, Bernardina.

2 comentários:

Soft disse...

Em Outubro de 2009:

Hoje fui visitar a minha avó de 98 anos. No meio de histórias muito improváveis de escadas subidas e descidas, de conversas com pessoas que já não estão entre nós e da confusão total sobre os bisnetos, eis um flash de lucidez: "O teu marido continua careca?" Uma pérola!


Sofia

Teresa Cardoso disse...

Este texto está tão bonito...., linda homenagem à tua avó!!, realmente é muito especial viver tantos anos, mas
percebo o sentimento de os começarmos a perder.... e dói, de certeza que estará em paz....
bjs