No dia 28 de Março à tarde, enquanto eu tinha prova de Estudo do Meio, a minha mãe tinha "exame".
Lá em casa havia já uns tempos que se falava da Defesa da minha mãe. Já havia uns meses que ela andava a estudar para um exame que nunca mais chegava. Já havia umas semanas que ela andava um bocadinho nervosa e dizia-me que ía terminar o ano. E eu perguntava, em que ano estás? e ela fazia as contas e dizia: No 25º. E vais passar? e ela respondia que sim, que tinha de passar. E vais ter de escrever muito?, e ela dizia-me que já tinha escrito tudo, que agora teria de responder a perguntas que uns senhores vestidos de preto lhe íam fazer. Eu abria os olhos, com ar de espanto e com um esgar de horror limitava-me a dizer xiiiiiiii!
Enquanto ela estava a responder às perguntas dos senhores de preto, eu estava a fazer a minha prova de Estudo do Meio, por isso não fui ao exame dela. Mas o meu pai, os meus avós, o Ricardo, a Tia Beatriz e o Tio João, a Guida e a Nini foram todos assistir ao exame da minha mãe.
Cheguei no fim, quando ela já sabia que tinha passado. Diziam que agora era doutora.
Toda a gente sorria e a minha mãe, corada do calor e dos nervos, sorria ainda mais que os outros.
E agora, mãe? Vais para o 26º?
Não, não há mais anos, respondeu. Agora logo se vê.
28/03/2014
08/03/2014
Com os Palma
Pelo 80º aniversário da tia Maria Luísa tivemos oportunidade de juntar os Palma em Azeitão.
E vá, tire-se uma foto só aos Palma e seus descendentes com a aniversariante!
E vá, tire-se uma foto só aos Palma e seus descendentes com a aniversariante!
05/03/2014
Dedo meu, para que te quero?
"Eu ía atrás do menino, para ir à casa-de-banho, mas ele fechou a porta e o meu dedo já lá estava dentro".
Quando quase à hora de almoço o telefone toca e dizem de lá que é da EB1 das Barrocas e que vão chamar uma ambulância, entra tudo em estado de alerta máximo. A ambulância não é precisa porque o pai, descendente de Pégaso (e com costela de Juan Manuel Fangio) chega lá certamente mais depressa.
Acabo a aula a correr, hora de almoço. Ligeirinha, carregada com toda a minha tralha electrónica, atravesso o campus enquanto enfio boca adentro, atabalhoadamente, um croissant misto que intersectei à saída do departamento. Sigo para as urgências do hospital que é já ali ao lado. Valha-nos isso. Pediatria, menino com o pai, dedo entalado. Já entraram, entraram logo, terá de esperar. Para onde foram? Ortopedia, e aponta para norte. Saio das urgências e dou a volta ao hospital. Entrada principal. No meio da tralha encontro o telefone a tocar. Onde estás? Na entrada principal e vocês? Aqui perto. Procura uma ambulância de matrícula ZP e entra na porta em frente. Ambulância no hospital... OK, de todas, só tenho de encontrar a de matrícula ZP. Lá está ela. Trocamos o testemunho. Ele almoçou? Sim. Saíu agora mesmo do r-x, falta o resultado. Anda aí uma enfermeira de leste com o cabelo vermelho que nos tem orientado. Tu já almoçaste? Ainda não e tu? Comi um croissant, queres bolachas? Toma. Até logo.
O Vicente está sereno, de penso no dedo, de dedo espetado. Quem passa pergunta: então, o que te aconteceu? e o Vicente espeta o dedo do meio e responde, baixinho: entalaram-me. Quem passa e pergunta também ri e diz: logo esse!
De vez em quando tremelica de cima abaixo. Que é isso Vicente, tens frio? Não, às vezes o meu dedo arde muito. A do cabelo vermelho leva-nos para um corredor. Podemos ir para a área de espera? Não tem lugar, você fica aqui. Ficamos no corredor à espera cerca de três horas. O dedo larga um fio de sangue que o penso já não consegue reter.
Quatro horas no hospital. Chamam-no mas não se percebe nada. Sabemos que é uma voz feminina que ruidosamente pronuncia um qualquer som que podia perfeitamente vir do espaço e ser a prova de que o Bing Bang aconteceu (mesmo). Os médicos falam em português correcto, pelo microfone, mas não têm a menor ideia do quão distorcido o som se ouve nos corredores. Será que ninguém os informa disso?
Uma velhota sentada ao lado diz-nos: estão a chamá-lo! Como é que sabe? Vá lá dentro e pergunte, menina, de certeza que é ele! Vou lá dentro e pergunto. Zangam-se porque já nos chamaram há muito. Zango-me porque não se percebe nada e porque pode ter a certeza de que sou a mais interessada em sair deste lugar o mais depressa possível. Ainda hoje me pergunto como é que a velhota sabia…
Quatro horas para nos dizerem que o dedo não está partido, que a unha vai cair e para tomar ben-u-ron para as dores.
Desinfecções e pensos regulares, sete dias depois o dedo do meio, sempre espetado, continua inchado, a aguadilha deixa de ser transparente e passa a amarela. Antibiótico, fucidine e dedo escaldado. Sempre espetado. Mais sete dias. Pensos e repensos. A unha levanta cada vez mais e já se vê lá para baixo. Ainda não há nada que a substitua. Dói? Dói mami, não mexas. E lá espeta o dedo outra vez.
Sete dias depois vou à Covilhã.
Tá, Vicente? Estou agora a sair da Covilhã, hoje é o papi que trata do teu jantar e banho. Como está o dedo? O papi arrancou a unha, já estava a cair, não doeu muito.
Dedo espetado.



