Há muitos anos atrás, naquele século dos anos que começavam em mil e novecentos, o meu avô foi para a guerra. Já trintão, ou perto disso, foi mesmo de armas e bagagens para um país chamado Moçambique, algures em África. No meu quarto em Portimão há um fotografia dele, tirada nesse país, nesses anos, fardado e ligeiramente armado, com a inscrição "Capitão Cruz".
O meu avô voltou. É um ex-combatente preocupado com as coisas dos combatentes.
Tem boina verde de pára-quedista. Almoça na Liga e reúne na Liga. Imagino que por lá veja jogos de futebol e coma alcagoitas com outros combatentes, também avós. No Natal recebe quilos de postais dos Açores e devolve telefonemas para os soldados, furrieis e outras categorias de combatentes que pertenciam à companhia dele: os Trinitá. Volta e meia visitam-no no Verão, vindos sabe-se lá de que lugar. Devem ter sido bons amigos. A guerra deve ser um sítio em que se fazem grandes amigos. E perdem-se outros.
E por causa destes, a Liga decidiu fazer um monumento em Portimão.
Ou a Liga ou o meu avô, nem sei bem… Enquanto comia alcagoitas ía rabiscando as ideias. Numa das minhas idas ao Algarve mostrou-nos o primeiro desenho de uma das cenas da guerra dos amigos. E lá nos contava a história da picada e da Berliet, de dentro da qual ele decidiu sair e que metros e minutos à frente explodiu com amigos lá dentro.
À distância, por Facetime, vimos a primeira maquete com as cenas da guerra dos amigos: uma na Guiné, outra em Angola e a de Moçambique. Informou-nos que o monumento ía para a Alameda em Portimão. Foi lançada e benzida a primeira pedra. Mas o monumento teve de mudar de sítio e acabou por ir para junto da Câmara Municipal. Melhor ainda!
Fui vê-lo assim que chegámos. Fiquei muito orgulhoso quando descobri a assinatura dele. Sentei-me lá ao lado.

Sem comentários:
Enviar um comentário