Estou diferente, sim, um menino muito crescido. Apesar de ainda gostar do triciclo, com o qual pedalo com grande energia, tanto para a frente como para trás, agora que herdei uma bicicleta do Noddy, sinto-me um verdadeiro ciclista e nem ponho em hipótese ir dar uma volta sem o capacete na cabeça.

Também me sinto muito à vontade com tudo e confiante nas minhas capacidades: já subo e desço as escadas com um pé só em cada degrau. Quero ser sempre o primeiro e insisto com o papi e com a mami que "o Tenha chega pinheiro". A mami diz que para ela chega o eucalipto, mas o papi diz que ela é um bocadinho toc-toc…
Já lavo a cabeça sozinho, o que me leva a, neste momento, já não me importar de a lavar dia-sim-dia-não. Já peço para fazer xixi e cocó na sanita, mas não é sempre - ainda! Já não engulo a pasta de dentes e cuspo e bochecho comme il faut. Sou eu que à noite dou de comer à Anastácia. O colete que levei para a praia em Portimão já o uso na piscina do Galitos para nadar sozinho, sem apoio do papi e da mami.
Também já minto, mas de forma deliberada. Geralmente tem a ver com situações de negociação difícil, que envolvem, por exemplo, a obtenção de um M&M extra ou mais um episódio de Thomas ou Ovelha Xoné antes de ir deitar.
Falo pelos cotovelos, numa vozinha de meio falsete, meio cana rachada. Já gosto de escolher os sapatos que vou levar calçados e sei bem explicar a sequência das coisas, usando o agora, o depois e o a seguir.
Já durmo sem grade na cama de um dos lados. Continuo a beber leite com flocos ao pequeno-almoço e já não uso biberão de todo: à noitinha como um iogurte dos pequeninos ou uma micro papa Cerelac. As minhas sestas também já são um bocadinho mais curtas, mas só um bocadinho.
A única coisa que não mudou foi a minha preguiça aguda à hora da refeição, que tem levado a paciência do papi e da mami aos píncaros do limite. A sopa, de que eu até costumo gostar, é sempre a priori rejeitada. E depois a papa envolve um esforço estranho, em que após a 2ª garfada começo a pedir ajuda. Portanto, já sei o que é estar de castigo, e quando é o papi a mandar-me ir para o quarto eu nem arrepio caminho. É o conforto da chupeta e da fraldinha e o facto de ficar de porta aberta a ouvi-los na cozinha que me recompõe e me leva a considerar que afinal a sopa não é assim um sacrifício tão difícil de superar.












































