Ter tido uma Avó Isaura significa muito mais do que ter tido uma Avó Isaura - isso é apenas biológico e todos nós tivemos avós, algumas até de seu nome igual ao desta.
Ter tido uma avó Isaura representa o legado biológico desenhado na árvore, nas parecenças físicas, umas bem evidentes, outras imaginadas, mas representa também (e bem mais) a herança de uma experiência que o sangue só por si não consegue transportar. É preciso viver e saborear uma avó Isaura para dela receber o que eu pude receber.
Memórias remotas transportam-me até ao 6ºC, a umas manhãs em que se preparava bolo, o inconfundível "Bolo da Avó Isaura", cuja massa ela mexia numa tigela de cerâmica branca, na altura já lascada, com as suas mãos cheias de veias azuis e com as unhas facetadas, tal como as minhas. Eu tinha o privilégio de rapar a taça, mas só depois de ela a ter cuidadosamente rapado com a espátula. Também lambiscava a espátula, mas era às escondidas porque ela não gostava que a espátula fosse lambida (nunca cheguei a perceber porquê). Depois, conduzia-me até à casa-de-banho, mesmo em frente à cozinha, e lavava-me as mãos e as minhas membranas digitais feitas de massa de bolo já seco, naquele espaço que me parecia enorme, onde havia um gigantesco pé no chão e no lavatório sempre, sempre, um sabonete de glicerina. Memórias odoríferas levam-me a evocar momentos curtos em que ela tratava da sua higiene - havia um desodorizante roll-on de frasco em vidro e tampa de metal (lembro-me perfeitamente da embalagem, não me lembro da marca), daqueles do tempo da pasta medicinal Couto, e a água de colónia que se trazia de Ayamonte. Nesses momentos, como precisava que eu lhe largasse a saia por instantes, punha-me a ouvir o mar dentro do grande búzio, sensação que na altura, para mim, era absolutamente mágica. Havia também uma preta magricela que dançava num só pé, quase nua e de bandeja na mão, por trás da porta da entrada do apartamento e com a qual eu simpatizava particularmente porque tinha quase a minha altura. Essa preta tinha as maminhas à mostra e eu lembro-me de ficar a olhá-la, com vontade de a vestir - havia restos de tecido junto à máquina de costura, por que motivo ainda não a tinham coberto? Dizia-me apenas que não lhe podia mexer porque era do Tio João… E quando voltava comigo à casa-de-banho, para me auxiliar em tarefas de sanita, depois de me por no chão, dava-me sempre uma palmada a fingir e dizia, enquanto me mordiscava o pescoço, "que rabo bom para levar uns açoites".
Aprendi com esta avó uma colecção de cantigas e lengalengas, uma ou outra história, e a jogar às cartas, mais concretamente, ao Burro. Aprendi com ela a Avé Maria e a rezar ao São Tomás de Vilanova, o padroeiro dos perdidos e achados, a quem recorríamos com frequência para encontrar as chaves de casa ou o porta-moedas. Aprendi a fazer croché e frioleira com aquela estranha agulha que parece saída das entranhas de uma lula, mas eram actividades que, para grande desgosto dela que dizia ter encontrado em mim rapariga prendada naquilo, nunca me interessaram nem um bocadinho. Ainda assim, não satisfeita com a minha desistência, encheu-me daquilo que para mim é um imenso e demasiado enxoval, cujo uso tem sido parco mas grande tem sido a estima, e que a partir de hoje, estranhamente, passou a ter um valor digno de cofre de banco.
Dignidade e humildade q.b. terei herdado desta minha doce avó que mimava pequenas coisas - para alguns insignificâncias -, tais como as suas plantas, os seus tarecos em ordem, o colarinho engomado, a casa limpa, o saber viver com pouco ou menos do que os outros, o saber rir com vontade (como ela ria quando contava o episódio da dentadura da Avó Elvira), mas também o saber estar em silêncio. Ensinou-me ainda o que significa "saudade" quando, na véspera das minhas vindas para Aveiro, em tempos de licenciatura, me entregava uma lata cheia de biscoitos e, enquanto me pedia uma pontinha de camisola interior para limpar as lentes dos óculos, embaciadas, enfiava-me no elevador, lavada em lágrimas.
Eu tive a sorte de com ela passar o tempo suficiente para perceber a importância do papel de uma avó no desenvolvimento de um ser. Quando eu for grande e avó, não vou saber fazer enxovais, crochés, nem tão pouco frioleira. Os meus biscoitos nunca serão tão bons como os dela e o meu bolo, ainda que eu insista em dizer que é bolo da avó Isaura, não tem aquela intransmissível textura e consistência. Mas vou querer saber estar num papel tácito de avó, que desejo seja idêntico àquele que ela me deixou com ela viver e saborear.