
Já em casa e depois de arrumarmos as compras todas, a mami despejou o conteúdo dos pacotes para dentro de um alguidar e disse-me que íamos dividir aquilo tudo em saquinhos para dar aos meninos. Eu, que já tinha as minhas mãos mergulhadas nas gomas e nos chupa-chupas coloridos, olhei para ela de soslaio e disse com cara de mau "os meninos não!". Mas a mami ía enfiando os doces dentro dos saquinhos de plástico e limitou-se a responder que sim, que eram para os meninos das bruxas. Reagi de imediato, contra-argumentando:
- Saquinhos não, um M&M é muito bom!
Já à noite, a mami acendeu umas velas em casa, pôs-me um chapéu preto na cabeça e uma capa de bruxa pelas costas e disse-me que eu ía entregar os saquinhos aos meninos. Lá concordei e até sorri para a fotografia. Mas à medida que os meninos íam aparecendo, com toques abusadores de campaínha e a fazer uns barulhos estranhos, eu deixei de querer ir lá fora ter com eles sozinho e a mami passou a acompanhar-me. A gota d'água foi quando estávamos a jantar e tivémos de levar doces a um grupo de meninos que já não eram meninos: eram todos grandes, medonhos, com dentes e unhas tudo preto, e a falarem muito alto. Entrei em casa, tirei o chapéu, tentei desenfiar-me da capa e disse à mami:
- As bruxas é muito mau, é muito feio, é horriviel. O Tenha não quer mais!
Mas afinal, vêm tocar-nos à campaínha, interrompem-nos o jantar, aparecem todos mal vestidos com umas carantonhas de meter medo e ainda me levam os doces todos cá de casa?! Vão mas é fazer bruxarias para longe!
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